domingo, 11 de novembro de 2012

Olhar amorosamente


O crescimento do mercado de pets shops é um absurdo considerando que o Brasil continua sendo um país de miseráveis.
É inegável que hoje temos mais comida na mesa, eletroeletrônicos de melhor qualidade e viajamos com maior freqüência, mas estamos longe de sermos  muito mais do miseráveis.
Afirmar que somos miseráveis gera desconforto, vamos reconsiderar,  talvez miseráveis em ascensão esteja suficientemente próximo as nossas “áreas de conforto”, afinal olhar o mundo a partir do primeiro andar é melhor do que estar no térreo.
Dar aula de economia ou questionar erros, acertos e fazer projeções sobre números definitivamente não é a minha melhor qualidade,  competência não falta para um longo e arrazoado texto apresentando considerações de parte a parte.
Poderia começar pelas teorias da mais valia, chegando as decisões de livre mercado, passando por compras por indução, efeito recompra pela internet, cruzando pela sustentabilidade e finalizando na teoria da libertação, a comercialização da teve a cabo esta passando por crença religiosa, questões demasiadamente áridas para as propostas do blog.
O fato é que estas são questões menores, olhar a vida amorosamente é um ato de amor, mesmo que ela seja absurdamente miserável.
Se de um lado as vendas de produtos de pets shops estão crescendo assustadoramente, no outro lado existem cãezinhos e gatinhos usando camas mais macias, comidinhas melhor elaboradas, casacos, lenços, coleiras, saias e  jóias mais sofisticadas.
Tudo isto sem esquecer carrinhos de bebês sendo usados para transportar os bichanos.
A luz da economia o alto volume de vendas nas pets seria uma equação básica da oferta e  procura, simples assim.
O que deixamos de considerar é o agente, aquele que faz as aquisições e o mais importante a razão, porque alguém gasta tanto em uma pet shop.
Algumas pessoas consomem mais de R$ 120,00 por mês,  valor do ticket médio por estabelecimento, obtido a partir de pesquisa realizada em algumas lojas em diferentes regiões de Porto Alegre.
Evidente que existem exceções, gastar trezentos reais ou mais não é incomum, isto sem considerar mudança da  estação e a renovação do enxoval, novos lençóis e cobertores, correntes, coleiras com assinatura de griffes.
Quando a família tem filhos o bichano passa a ser o mano, usa camiseta do time, senta no sofá nos jogos da final, em fim a zorra é total.
Pessoalmente confesso que relações com os meus animais de estimação e cães sempre foram os meus favoritos, nunca excederam ao correr junto pelas ruas da cidade, tomar banho de mar, deixar pular na cama para fazer uma “festinha”, colocar a cabeça no colo e aguardar a vez para comer um petisco do churrasco.
Conheço casos em que o bichinho tem lugar na mesa, tem prato igual e as pessoas da casa não devem ter certas “liberdades”, eles podem ficar nervosos.
Mas afinal porque as relações chegaram a este ponto, porque os animais estão ocupando tanto espaço e em alguns casos  se tornaram os tiranos de alguns membros da família.
A grosso modo se pode afirmar que fácil mesmo é transferir afeto, difícil é transferir medo, derrota e dor.
Quando alguém se entrega em amor, atitudes e presentes a um bichano, em condições consideradas exacerbadas, exatamente o que ela esta fazendo, ou melhor, o que ela esta tentando dizer?
Acredito que ela esteja retribuindo um olhar amoroso que somente aquele cachorro ou aquele gato são capazes de ofertar.
Olhar amorosamente supera toda e qualquer capacidade de entendimento do mercado ou da economia, é apenas e tão somente inexplicável.
No filme Sempre ao seu lado todos choramos e nos divertimos com o cãozinho Hachi, mas nada é mais forte do que os olhares trocados entre ele e o dono, interpretado por Richard Gere.
Cumplicidade, respeito, amizade, carinho, dignidade, alegria, felicidade e um eu sei o que você esta sentindo que somente os nossos bichos são capazes de saber, sensações que tiram o chão e nos devolvem a vida.
Gastar os tubos para materializar gratidão e amor, talvez não seja a melhor das alternativas, mas liberdade também pode significar eu amo você.
O fato é que nem mesmo os nossos maiores amores são ou foram capazes de traduzir aquele olhar que vigia nossos passos, vela nosso sono e óbvio baba a nossa cara na hora de dizer....bom dia vamos correr, preciso me exercitar...
Talvez a individualização não seja o norte para gastanças em pet shop.
Talvez os bichanos possam ser apenas sinônimos de alegria e felicidade, porque olhar amorosamente deveria ser nossa melhor forma de ver a vida sempre.
Das frases atribuídas ao filme Sempre ao seu lado, sugiro esta como reflexão ... se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu, porque estar como você é um pedaço dele...
Que as Pedritas, Megas, Argus, Krueis, Zeus e os Marvins estejam atentos e aguardando os nossos reencontros, até lá transferir afeto esta permitido, olhar a vida amorosamente é a minha sugestão.

2 comentários:

  1. Seu relato é bem real,e sabem porque as pessoas se apegam aos animaizinhos ? Porque eles não falam, apenas sacodem o rabo em agradecimento, não retrucam,não teimam, são fieis, se fazem algo de errado e os enxotamos, não ficam com magoas, e outras coisas que relatadas aqui vamos ficar sem espaço, por isso gastamos as vezes o que não temos para dar-lhes um mínimo de condições de boa vida, mas evidentemente sem exageros, somos AMOROSAMENTE retribuídos ao CARINHO que recebemos.Beijos e bom dia !!! e boa semana, não gaste em exagero,lembre-se do amanhã.

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  2. SENSACIONAL! Ontem mesmo falava com um profissional da odontologia e ele disse: Deveria abrir um pet shop e fechar meu consultório!
    É inacreditável minha amiga, ele tem razão.
    Quanto a transferência de amor e valores? Concordo plenamente contigo em tudo...mas...O IMPORTANTE É SER FELIZ! Cada um no seu modo.

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